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Frédéric Bastiat – O indiscreto

24 de maio de 2015

Frédéric Bastiat – http://www.mises.org.br/EbookChapter.aspx?id=350

O indiscreto

12 de dezembro de 1847.

Proteção à industria nacional! Proteção ao trabalho nacional! É preciso ter o espírito bem do contra e o coração muito perverso para gritar contra tão bela coisa.

Sim, de fato. Se estivéssemos bem convencidos de que a proteção, tal como a decretou a Câmara do voto duplo, aumentou o bem-estar de todos os franceses, inclusive o nosso, se pudéssemos pensar que a urna da Câmara do voto duplo, mais maravilhosa que a de Cana, operou o milagre da multiplicação dos alimentos, das roupas, dos meios de trabalho, de locomoção e de instrução — em uma palavra, de tudo o que compõe a riqueza do país —, aí então haveria em nós inépcia e perversidade se exigíssemos o livre mercado.

E por que então, nesse caso, não iríamos querer proteção? Pois bem, senhores, provem-nos que os benefícios que ela dá a uns não são alcançados à custa do sacrifício de outros. Provem-nos que ela fez bem a todo mundo: ao proprietário, ao fazendeiro, ao negociante, ao industrial, ao artesão, ao operário, ao médico, ao advogado, ao funcionário, ao padre, ao escritor, ao artista. Provem-nos isso, e prometemos que cerraremos fileira junto com ela. Por enquanto, apesar do que vocês venham a dizer, ainda não estamos loucos.

E, quanto a mim, para lhes mostrar que não é por capricho e nem por tolice que me engajei nessa luta, vou-lhes contar minha história.

Depois de ter feito muitas leituras, de ter meditado, recolhido numerosas observações, seguido semana após semana as flutuações do mercado de minha cidadezinha, depois de ter mantido com numerosos negociantes uma ativa correspondência, cheguei, por fim, ao conhecimento pleno do fenômeno:

QUANDO A COISA FALTA, O PREÇO SE ELEVA.

Acreditei ter podido tirar disso, sem ser muito ousado, a seguinte consequência:

O PREÇO SE ELEVA QUANDO E PORQUE A COISA FALTA.

Fortificado por essa descoberta, que me valerá no mínimo tanta celebridade quanto a do senhor Proudhon com a famosa fórmula: A propriedade é roubo, eu me encarapitei, qual novo Don Quixote, em minha humilde montaria e parti pelos campos.

Apresentei-me inicialmente a um rico proprietário e lhe disse:

Senhor, faça-me a gentileza de me dizer por que o senhor se prende tanto à medida que, em 1822, a Câmara do voto duplo tomou com relação aos cereais?

Ora, vejamos, a coisa é clara! Porque ela me proporcionou melhor venda para o meu trigo.

O senhor acha então que, de 1822 a 1847, o preço do trigo foi, em média, mais elevado na França, graças a essa lei, do que seria se ela não tivesse sido editada?

Claro que sim, pois, do contrário, eu não a apoiaria!

Mas se o preço do trigo ficou mais caro, foi preciso que houvesse menos trigo na França com essa lei do que sem ela, pois se ela não afetasse a quantidade, não teria afetado o preço.

Isso é óbvio.

Tirei então de meu bolso um caderno de notas e escrevi o seguinte:

“Pela confissão do proprietário, há 25 anos que essa lei existe e, definitivamente, houve MENOS TRIGO na França do que se a lei não tivesse existido.”

Em seguida, dirigi-me a um criador de gado.

Será que o senhor poderia me esclarecer por que motivo apoia tanto a restrição com relação à entrada de gado estrangeiro no país, feita pela Câmara do voto duplo?

É que, com isso, eu vendo meus bois por um preço mais alto.

Mas, se o preço fica mais alto por causa dessa restrição, isso é um sinal certo de que houve menos bois vendidos, abatidos e comidos no país, nos últimos 25 anos, do que se não existisse tal restrição?

Boa pergunta! Nós só votamos a restrição por causa disso.

E eu escrevi logo no meu caderno:

“Pela confissão do criador de gado, há 25 anos que a restrição existe e há MENOS BOIS na França do que se não existisse a restrição.”

Daí fui então visitar um ferreiro.

Será que o senhor poderia me dizer, por gentileza, por que defende tão energicamente a proteção que a Câmara do voto duplo concedeu ao ferro?

Porque, graças a ela, consigo vender meu ferro por um preço melhor.

Mas então, graças a ela também, há menos ferro na França, pois se a quantidade de ferro oferecida fosse igual ou superior, como o preço poderia ser mais elevado?

É claro como a água da fonte que a quantidade é menor, pois essa lei teve exatamente o objetivo de prevenir contra a invasão de ferro no país.

E eu escrevi nos meus papeizinhos:

“Pela confissão do ferreiro, já há 25 anos, graças à proteção, a França vem tendo MENOS FERRO.”

Eis que as coisas começam a ficar claras, me disse eu, e corri para a casa de um comerciante de tecidos.

O senhor me poderia dar uma pequena informação? Faz 25 anos que a Câmara do voto duplo, à qual o senhor pertence, votou a exclusão absoluta do comércio do tecido estrangeiro. Quais devem ter sido as razões que a levaram, e ao senhor também, a chegar a isso?

Será que o senhor não compreende que foi para que eu tirasse melhor partido de meus tecidos e ficasse rico mais depressa?

Não tenho dúvidas. Mas o senhor está bem certo de que teve sucesso? Está bem seguro de que o preço do tecido tenha ficado, durante esse tempo, mais elevado do que se a lei tivesse sido rejeitada?

Isso não pode ser motivo de dúvida. Sem a lei, a França teria sido inundada de tecidos e o preço se aviltaria, o que seria uma coisa terrível.

Eu não estou ainda querendo saber se seria terrível, mas, seja como for, o senhor concorda que a consequência da lei foi a de fazer com que houvesse menos tecidos na França?

Essa foi não só a consequência como o objetivo da lei.

Muito bem, disse eu, e escrevi nas minhas notas.-“Pela confissão do comerciante, já há 25 anos que a França vem tendo MENOS TECIDO por causa da proibição.”

Seria muito longo e fastidioso continuar buscando detalhes sobre essa curiosa viagem de exploração econômica.

Basta que eu diga que visitei sucessivamente um pastor, um comerciante de lã, um colono, um comerciante de açúcar, um produtor de sal, um ceramista, um acionista de minas de ferro, um fabricante de máquinas, um de instrumentos de arado e ferramentas, e de todos obtive sempre a mesma resposta. Voltei para casa e fui rever minhas notas, tentando colocá-las em ordem. Não posso fazer coisa melhor do que publicá-las aqui.

“Já há 25 anos, graças às leis impostas ao país pela Câmara do voto duplo, tem havido na França:

menos trigo; menos carne; menos lã; menos hulha; menos velas; menos ferro; menos aço; menos máquinas; menos arados; menos ferramentas; menos tecidos; menos fios; menos sal; menos açúcar; e menos de todas as coisas que servem para alimentar, vestir, alojar, mobiliar, aquecer, iluminar e fortalecer os homens.”

Por Deus do Céu, exclamei, posto que é assim, A FRANÇA FICOU MENOS RICA!

Em minha alma e na minha consciência, diante de Deus e dos homens, pela memória de meu pai, de minha mãe e de minhas irmãs, por minha salvação eterna, por tudo o que há de mais caro, de mais precioso, de mais sagrado e de mais santo neste mundo e no outro, acreditei que minha conclusão era justa.

E se alguém me provar o contrário, eu não somente deixarei de pensar sobre esse assunto, como deixarei de pensar sobre o que quer que seja, pois em qual raciocínio poderei eu ter confiança, se não puder ter neste do qual estamos tratando?

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